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A JORNADA DO POVO DE DEUS

(Entre a Fragilidade humana e a Graça imutável)


Por Carlos Alberto Maia Guerra


A JORNADA DO POVO DE DEUS

INTRODUÇÃO

Você já ouviu o ditado de Lao Tsé[1]"Uma jornada de mil milhas começa com o primeiro passo"? Na nossa caminhada pelas Escrituras, cada passo tem nos ensinado algo vital. Se em Gênesis descobrimos o que é a fé e em Êxodo aprendemos que ela se manifesta na adoração, Levítico nos levou às profundezas da santidade. Agora, chegamos ao livro de Números, onde a teoria encontra a prática — e o cenário é o deserto.

No original hebraico, o nome deste livro é Bemidbar, que significa literalmente "No Deserto". Mais do que uma lista de censos, Números narra a história de um povo que saiu da escravidão, recebeu a Lei no Sinai, mas precisou aprender a confiar em Deus enquanto caminhava rumo à Terra Prometida.

Sobre o autor

Bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica de Ciências Humanas e Sociais – LOGOS – FAETEL de São Paulo. É Pós-Graduado em Docência Superior em Teologia pela Faculdade Teológica de Ensino Superior – Instituto Bíblico Ebenézer. Graduado em Liderança Avançada e Gestão Estratégica de Ministério, pelo Instituto Haggai Internacional. Mestrando em Ministérios pela Carolina University na Carolina do Norte. Casado com Eliane de A. Guerra, possui três filhos: Bruna, Rafael e Jacqueline e seis netos. E-mail: prcarlosguerra@gmail.com

Números surge para enfatizar a centralidade da obediência prática, desnudando as raízes, os processos e os frutos amargos da desobediência. Este não é um livro sobre pessoas vagando sem rumo. É sobre um Deus que: Guia através da incerteza; Corrige com justiça; Sustenta com graça, mesmo diante da teimosia humana. Apesar da constante rebeldia, Deus providenciou graciosamente um caminho para que o povo vivesse próximo à Sua santa presença.


A estrutura de Números é dividida em três estágios, acompanhando a geografia de Israel: A Partida do Sinai: Após um ano acampados, o povo parte em direção a Canaã; A Crise da Incredulidade: O que deveria ser uma viagem de poucas semanas transformou-se em 40 anos de peregrinação (conforme o relato em Números 32:13). O motivo? Desobediência e falta de fé; e, A Nova Geração em Moabe: O livro termina com uma nova linhagem pronta para a conquista, aguardando as últimas palavras de Moisés antes de sua morte (Deuteronômio 34:5).


Se você quer entender a essência de Números, preste atenção nestes destaques: A Bênção Aarônica (Números 6:22-27); A Consagração e Inauguração do Tabernáculo (Números 7:1); A Serpente de Bronze (Números 21:4-9): Um símbolo de cura que, como Jesus explicou em João 3:14-15, apontava diretamente para a Cruz; e, As Profecias de Balaão (Números 22 a 24): Quando Deus usa até um profeta estrangeiro para confirmar Suas promessas.

 

Números 24:17a (NVI) - “Eu o vejo, mas não agora; eu o avisto, mas não de perto. Uma estrela surgirá de Jacó; um cetro se levantará de Israel”
  (NTLH) - “Olho para o futuro e vejo o povo de Israel. Um rei, como uma estrela brilhante, vai aparecer naquela nação; como um cometa ele virá de Israel”

 

DESENVOLVIMENTO

O desenvolvimento do livro de Números nos leva a um dos episódios mais intrigantes da Bíblia: a história de Balaão. Contratado pelo rei Balaque para amaldiçoar Israel, esse profeta pagão acabou se tornando o porta-voz de uma das mais belas revelações messiânicas das Escrituras. Surpreendentemente, o Senhor revelou-Se a esse profeta pagão, descortinando diante dele o futuro glorioso de Israel entre as nações. De todos os textos deste livro, este é o ponto alto messiânico, pois transcende a realidade da época e nos remete ao futuro glorioso do povo de Deus.


Embora a realidade do povo parecesse desoladora, as palavras do Senhor demonstram que Ele deseja erguer-nos acima de uma existência árida — muitas vezes dominada apenas por necessidades básicas — para que compreendamos o Seu projeto eterno. A caminhada do Sinai à Terra Prometida é uma jornada em direção ao descanso eterno e ao Reino futuro, que ultrapassa o contexto histórico de Canaã.


Em Números, contemplamos um Deus que trata o Seu povo com justiça, mas que reserva uma bênção especial à minoria fiel que caminha em meio a uma maioria sob disciplina. Como bem observa o teólogo Thomas Constable em suas Notas Expositivas [2], o valor central de Números é revelar a graça divina em uma extensão jamais vista. Vemos a bondade do Senhor no Seu trato com Israel em cada capítulo: Ele protege e supre Sua nação mesmo em tempos de infidelidade, provando que permanece fiel, pois não pode negar-Se a Si mesmo (2 Timóteo 2:13).


Ainda que a Igreja moderna viva um contexto teológico e social distinto do antigo Israel, a jornada no deserto ainda tem muito a nos ensinar. Ao olharmos para os erros e murmurações daquele povo, somos convidados a contemplar, acima de tudo, a fidelidade inabalável e a constância do caráter de Deus.

 

I. FÉ RELATIVIZADA PELA CONVENIÊNCIA

Apesar das tribos possuírem a Lei e o Tabernáculo como centro geográfico e espiritual, a rebeldia era uma constante. Israel tentava "equilibrar" a adoração ao Senhor com o culto aos deuses locais, como Baal. Ali, a fé deixava de ser exclusiva para se tornar relativa, moldada pelas conveniências do momento (Êxodo 32).


No deserto, a fé de Israel era frequentemente relativizada pela fome ou pela sede. O milagre de ontem perdia o valor diante da carência de hoje; a fidelidade a Deus tornava-se dependente do bem-estar imediato, e não da confiança no Seu caráter imutável. É revelador notar que, na maioria das vezes, a queixa surgia logo após um ato milagroso[3], evidenciando que o povo sempre exigia "algo mais". Isso nos prova que a multiplicação de sinais não gera, necessariamente, o fortalecimento da fé, e acabou por se tornar uma pedra de tropeço.


Como bem define o teólogo Norman Geisler, os milagres possuem dimensões essenciais: a) teológica, é o próprio Deus agindo na história; b) moral, manifestam o caráter de Deus e trazem glória a Ele. Milagres são atos visíveis que refletem a natureza invisível de Deus; c) doutrinária, confirmam a verdade e distinguem o profeta verdadeiro (Deuteronômio 18:22). Mensagem e milagre andam juntos; e, d) teleológica, têm o propósito específico de glorificar ao Criador e fundamentar a fé.[4]


Israel corria o risco de perder o propósito da sua jornada. Eles tentaram transformar o Deus do Universo em apenas um "provedor de milagres", esquecendo-se de que Ele é, acima de tudo, o Senhor da Aliança. As testemunhas perderam de vista o significado do sinal e o verdadeiro propósito do Senhor e passaram a ansiar apenas pelo benefício do poder. Para o Deus Criador, enviar as pragas sobre o Egito, abrir o Mar Vermelho ou conduzir o Seu povo rumo à Terra Prometida não é nada se comparado ao poder supremo da criação ex nihilo, o trazer o Universo à existência a partir do nada.


Curiosamente, nesta narrativa, o profeta pagão Balaão parece demonstrar mais temor do que o próprio Israel. Ele desfrutava de uma acessibilidade a Deus muito acima da média e manifestava o desejo de ouvir Sua voz, apesar da resistência inicial no episódio da jumenta (Numeros 22:22-31). Como afirmou Ravi Zacharias, o que realmente incomoda e causa desconforto aos críticos e os falsos cristãos não é a ausência de sinais, mas a mensagem de arrependimento e compromisso que vem atada a eles[5].

 

II. OBEDIÊNCIA PARCIAL É DESOBEDIÊNCIA

Números esboça um contraste gritante entre o caos da natureza humana e a constância da fidelidade divina. À medida que a narrativa avança e chegamos ao episódio do profeta Balaão, notamos que as rebeliões do povo se tornaram cada vez mais graves. Embora Deus exerça atos de justiça sobre Israel, disciplinando-os, Ele simultaneamente continua a mostrar uma misericórdia inabalável, provendo alimento e água ao longo de toda a jornada.


Observem, amados, que a história de Balaão revela a graça de Deus em cores vivas e brilhantes. Enquanto Israel pecava e murmurava no acampamento, Deus estava nas colinas — de forma invisível ao povo — impedindo ativamente que as maldições de um profeta mercenário os atingissem. Números concentra-se, fundamentalmente, no relacionamento dos israelitas com o seu Deus. Vemos a realidade da presença de Deus no meio do Seu povo, Ele guiando a jornada, e a necessidade da devida adoração quando estabelecidos na terra prometida.


Deus não busca seguidores que Lhe obedeçam apenas por conveniência ou por interesse no milagre. Frequentemente, nós relativizamos a vontade de Deus, achando que Ele "irá entender" nossas falhas deliberadas. Entretanto, a Bíblia é clara: Ele espera rendição total, não apenas boas intenções ou sacrifícios parciais. Na matemática do Reino, 90% de obediência ainda é desobediência. Não existe "desobediência aceitável" ou explicada por argumentos religiosos inteligentes. Deus vê além de todas as máscaras; Ele não se engana.

 

III. IMUTABILIDADE DA ALIANÇA

Na segunda profecia, ele foi confrontado com o caráter imutável do Senhor: “Deus não é homem para que minta, nem filho do homem, para que se arrependa. Por acaso, tendo ele dito, não o fará? Ou, havendo falado, não o cumprirá?” (Números 23:19). Ele precisava entender que o Criador não pode ser manipulado, forçado a mentir ou persuadido a mudar de opinião sobre aquilo que já decretou.


Balaão descobriu, da maneira mais difícil, que nenhum homem pode amaldiçoar a quem Deus decidiu abençoar. Esta verdade remonta à promessa incondicional feita a Abraão em Gênesis 12, e é reafirmada quando Deus concede a esse profeta pagão uma visão gloriosa: um futuro Rei israelita que trará a justiça divina a todas as nações. Esta profecia ecoa a bênção messiânica de Jacó sobre Judá em Gênesis 49:9-10, confirmando que o plano de Deus é linear e imutável.


Como o próprio Balaão confessou: “Recebi ordem para abençoar; pois Ele abençoou, e não posso revogar a bênção” (Números 23:20). É fascinante notar que Balaão declarou que Deus não viu iniquidade em Israel (se refere ao posicionamento jurídico/pactual de Israel diante da maldição), não porque o pecado não existisse, mas porque o Senhor, em Sua graça, escolheu manter a Sua Aliança e exercer o perdão sobre um povo que Ele tomou para Si.


Há aqui uma ironia que serve de alerta solene: é possível ter acesso a Deus, ouvir Sua voz e até contemplar o futuro de Suas promessas, e ainda assim manter um coração distante do arrependimento. Enquanto Israel relativizava a fé através da murmuração no deserto, Balaão corria o risco de comercializá-la por meio do seu prestígio. Ambos erraram na mesma raiz: focaram nos milagres, mas ignoraram o Senhor da Aliança. A Igreja moderna não pode cair no mesmo tropeço. Não somos chamados para ser consumidores de sinais, mas discípulos da Palavra.


Aprendemos aqui uma verdade que as falhas do povo de Deus podem até adiar os Seus planos, mas jamais conseguirão impedi-los. No entanto saber que nossas falhas adiam o propósito de Deus deve despertar em nós um profundo temor, e não um alívio inconsequente. Assim como a oposição externa de Balaque não derrotou Israel, a falha interna do povo não derrotou a fidelidade de Deus. Ele permanece fiel, pois não pode negar-Se a Si mesmo.

 

CONCLUSÃO

A maior lição de Números é que a nossa desobediência não anula a fidelidade de Deus. O livro nos aponta para o futuro, para uma esperança maior. Mesmo no deserto mais árido, Deus está preparando o caminho para o Rei.


Aprendemos que, no deserto, a fidelidade divina era o único sustento, e a obediência, a resposta indispensável à Sua santidade. Com Israel, aprendemos também que relativizar a fé é o mesmo que torná-la conveniente. É o perigo de permitir que a vontade de Deus deixe de ser a nossa bússola para se tornar apenas uma das muitas opções sobre a mesa.


A Igreja moderna encontra-se em uma situação distinta da de Israel, tanto teológica quanto socialmente; contudo, a constância do caráter de Deus e as inclinações da natureza humana permanecem inalteradas. Portanto, deixo-vos esta reflexão: Se Deus parasse de realizar milagres visíveis em sua vida hoje, o que restaria da sua fé? Ela se sustenta na mensagem de Cristo ou apenas nos benefícios que Ele oferece?


Que a nossa fé não seja movida pelo que Deus faz após suprir nossas necessidades, mas por Quem Ele é desde o princípio. O sinal pode até atrair a multidão, mas é a mensagem de compromisso que separa os curiosos dos verdadeiros adoradores. Que o nosso temor não seja menor do que o de um profeta pagão, e que a nossa constância seja superior à de Israel no deserto. Que Deus nos ajude a viver uma fé absoluta em um mundo de verdades relativas.


A terra está repleta do céu, e cada sarça comum, ardente por causa de Deus; mas somente quem percebe tira as sandálias; o restante se assenta ao redor colhendo as amoras. — Elizabeth Barrett Browning, Aurora Leigh (1856) [6]

[1] Tao Te Ching, capítulo 64, o original enfatiza que a jornada começa exatamente onde você está agora ("sob os pés"), valorizando o ponto de partida imediato.

[2] CONSTABLE, T. L. Notes on Numbers: 2026 Edition, disponível em < https://soniclight.com/tcon/notes/html/numbers/ numbers.htm >. Acesso em: 26/01/20265.

[3] A Fé e os Sinais. Israel viu o Mar Vermelho se abrir e o maná cair do céu, mas murmurou logo em seguida. Nuvem – Murmuração das dificuldades; Fogo – Murmuração contra o Mana; Codornizes e Praga Terrível – Miriam e Arão se opõem a Moisés; Nuvem – Cura da Lepra de Miriam; Os espias e prosperidade da terra – Rebelião para voltar para o Egito; Nuvem – Revolta de Corá por causa da liderança de Moisés; Terra engoliu – Murmuração do povo; etc

[4] GEISLER, Norman.L. Enciclopédia de Apologética: respostas aos críticos da fé cristã. tradução Lailah de Noronha. São Paulo: Editora Vida, 2002. p. 557.

[5] ZACHARIAS, Ravi. JESUS ENTRE OUTROS DEUSES: Uma defesa da singularidade da fé cristã. traduzido de Márcio L. Redondo. 1. ed. São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 2018. p. 85.

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